O aviãozinho esperou o político no sítio das partidas vip da Portela.
Ele chegou de gravata de seda vermelha e fato de bom corte. O sorriso desfez impaciências. Seguia para norte em conversa bem feita com os convidados que foram ver como é que um político deve estar com o povo numa inauguração longe da capital. Bem falante, contava histórias num tom casual muito treinado, tentando uma intimidade que, conquistada, servia de travão a perguntas mais incómodas. Palavras contadas para conseguir aliados.
O aviãozinho voava e o político atreveu-se a dizer que tinha um certo medo. Será? Os convidados simpatizaram e fez-se humor sobre o medo. O político somava pontos. Aterrou.
Compôs a gravata, ajeitou as calças, abotoou o casaco e pôs o sorriso de acordo com o acto de descer as escadas entre o cumprimentar do senhor que lhe estendeu a mão antes de o levar ao carro sem passar pelas maçadas da segurança. O motorista esperava-o, vindo de Lisboa, no seu carro de sempre. Era preciso ir mais a norte. E o político sentou-se à frente. Disse que era sempre assim. Sempre assim. Não era, Costa? Pois.
E na terra o povo estava aos magotes, sem ordem nem arrumo. Era tarde e a paciência é limitada. Além de que os sapatos apertam e as gravatas não se moldam aos pescoços. E há tanto que fazer e dizer e o político que não vem. Mas lá vinha. A banda tocou e todos se perfilaram, presidente da Câmara à frente de uma populaça treinada para receber. Aperto de mão fraterno. Quem diria que eram rivais políticos? Eram, mas o político de Lisboa ia ali anunciar obras novas e quem diz que não a uma novidade? Havia discurso, almoço e passeio à beira rio e fatos para estrear.
Os políticos trocaram os sapatos engraxados por galochas e, um e outro, lado a lado, conversavam o que ninguém ouvia, cajado na mão a desbravar mato, como se fosse coisa de todos os dias. E os outros atrás. O da terra apontava. O de Lisboa fazia que sim com a cabeça. Seria ali. Era aquele o lugar que iria fazer toda a diferença à política nacional sem que ninguém desconfiasse. Vendia-se orgulhos e todos compravam. E falaram, anunciaram, sorriram, voltaram a apertar a mão, deram palmadas nas costas, ouviram palmas e calaram o que havia para calar. Palavra de político. O negócio estava feito. Comeu-se carne, bebeu-se vinho, provou-se o doce e não houve tempo para café. O político de Lisboa é ocupado e tem de chegar a horas para a reunião. A reunião!
E veio o carro e depois o aviãozinho e o político foi citando pensadores, inspirações, referências, passou pelo corredor e arredou a cortina da janela do gabinete. Acendeu o cigarro e olhou o rio da varanda.



















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